a agua gelada escorria, escorria pela pela, descendo e acompanhando todo o corpo que se banhava na tal noite.
em meio ao frio, frio da agua gelada que caia do alto, do alto onde o chuveiro se encontrava.
em meio a esse frio, uma gota quente surge. uma única; única por alguns segundos, pois logo após foi seguida por várias outras. e logo assim, tais gotas quentes, que vinham de dentro, se misturavam com as frias, que vinham de cima.
''o que é isso? o que deveria significar?'' - pensou.
mas elas não paravam de rolar pela pele, seguindo as frias. as gotas eram lágrimas. lágrimas de um choro sereno que caia sem perdão sobre sua face.
''por que?'' - pensou.
o silencio foi sua resposta. o silencio, que trás consigo as lembras, e os velhos pensamentos.
''não preciso de ninguém'' - pensou.
e mais lágrimas rolaram de seus olhos. talvez isso fosse devido a falta de liberdade dos sentimentos e emoções. talvez esse fosse aquele dia, o dia em que tudo é motivo. um daqueles dias, que eram bem freqüentes pra ela, aqueles dias que ela chamava de ''o pior dia da minha vida''.
''mas por que hoje?'' - pensou.
talvez fosse porque nada valia a pena, nada era bom o suficiente, porque viver simplesmente por viver não deixa ninguém muito feliz. talvez fosse porque viver pelos outros, para fazer os outros bem, não era algo muito animador. talvez fosse por estar cansada de ser, cansada de estar, cansada de respirar, de ouvir, de enxergar; cansada de viver. talvez fosse por tudo isso. mas ela não conseguiu saber o porque exato.
e a escuridão caiu sobre ela. sobre sua casa, sobre sua vida; novamente.
mas era uma escuridão literal. também.
e em meio a esse escuro, veio a solidão.
''morreria agora'' - pensou.
mas não morreu. ficou ali, parada, no canto, molhada, no escuro. e a situação não mudou, exceto pela solidão, que tomava conta rapidamente.
estava chorando de novo, mais, e mais. pensando nas pessoas que amava, que eram próximas.
depois de muito chorar, se levantou e foi ao encontro de um amigo; ao encontro de um irmão.
desesperada, desamparada, seguida pela própria sombra.
e a fumaça ia ficando para trás, pois o vento corria forte. um covarde cigarro na mão trêmula. trêmula de desespero, de solidão?
um abraço forte, pra acalmar a alma.
um sorriso bondoso, para tirar o desespero.
luzes, para manter a calma.
uma falsa sensação de conforto crescente, porém nem um pouco convincente.
''me sinto mais estável, não precisa mais me reconfortar" - pensou quanto a tal falsa sensação.
por duas horas se sentiu felizmente deslocada em meio aos amigos; como o de costume. então foi-se de volta a sua velha escuridão. mental e literal.
''solidão sozinha é solitária, mas em meio as pessoas, o desejo de sumir parece mais forte que o desejo de repulsivo a solidão.'' - pensou confusa. - "preciso de um irmão eternamente real" - concluiu.
deitou-se, e adormeceu em meio ao terror que a escura solidão lhe causava.